No dia do Ferroviário, homenagem aos funcionários que mantêm a família nos trilhos

Nesta quinta-feira, 30 de abril, Dia do Ferroviário, há centenas de personalidades para homenagear em todas as áreas que integram a CPTM. Mas, há alguns que, mais do que representar um setor específico, destacam-se pela capacidade de perpetuar a tradição ferroviária por várias gerações. Carlos Alberto Fraga, Roosevelt Louro e Marcos Antônio Galvão fazem parte de famílias de ferroviários que garantiram a transmissão ininterrupta da dedicação à ferrovia.

O supervisor geral da Estação Grajaú, Carlos Alberto Fraga, há 29 anos na ferrovia, é o representante da quarta geração de uma família invicta, que ostenta 78 anos sem intervalos nessa tradição. Seu bisavô Antônio Manoel foi o precursor dessa linhagem que seguiu incólume pelas gerações seguintes. Das lembranças que traz do bisavô, Fraga guarda na memória a atividade exercida por ele -era o responsável por completar a água do reservatório das locomotivas, movidas a carvão, estacionadas na estação.

O avô, João Batista Fraga, chefe da Estação Osasco na antiga Estrada de Ferro Sorocabana, e o pai Waldemar Aparecido Fraga, inspetor de estações da Sorocabana e, posteriormente, da Fepasa, repassaram os valores que mantiveram em sua conduta profissional. Ética, justiça, honestidade, prestação de serviço e responsabilidade são alguns dos traços comuns que unem as quatro gerações. A convivência com os trilhos vem desde a vida intrauterina. "Meus pais fizeram a viagem de lua-de-mel por trem, que, naquela época dispunha de cabine. Nasci após exatos nove meses", conta reticente, dando margem a livres interpretações.

Na infância, morando em vila ferroviária, foi contaminado com o modus operandi ferroviário. "Na Operação não tem rotina. Há situações que você tem que resolver, não dá aguardar orientação". Identificado com essa atitude, cita o parto que fez na Estação Osasco em maio de 2009. Com a ajuda do agente operacional Ivanildo Fernandes, hoje Líder de Estação, atendeu uma grávida no banheiro da estação. Apesar da inexperiência com o procedimento, não hesitou em responder aos apelos de socorro: "tá nascendo, aqui, no banheiro". As condições precárias -ambiente e trajes inadequados, prematuridade e posição fetal invertida [o bebê nasceu pelos pés]-, também não foram impedimento para o parto bem-sucedido.

A capacidade de discernimento foi aplicada em outras ocasiões, como aquela vivida no ano passado, quando dois trens ficaram parados na plataforma durante 30 minutos. "Eram 7h30, dia útil, quando o CCO avisou: "A circulação na Linha 9 está temporariamente interrompida. As estações deverão ser evacuadas e fechadas...". Apesar de todos os problemas -6 mil usuários na estação e uma hora e meia com indisponibilidade de trem na linha -não tivemos nenhum registro de vandalismo. O dinamismo na emissão de avisos e o atendimento exemplar dos funcionários permitiram o sucesso da empreitada", ressalta, atribuindo à equipe o resultado alcançado.

Dinamismo e relacionamento

A falta de rotina também é o motivo que atrai o supervisor geral da Estação Júlio Prestes, Marcos Antônio Galvão, à ferrovia. Filho e neto de ferroviários, desde criança aprendeu a gostar e admirar o trabalho que identifica a família. Os avôs, ambos funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, e o pai, chefe da Oficina de Presidente Altino, transmitiram essa identificação que se alastrou pelas gerações seguintes. Tios, primos e os irmãos, Carlos Henrique Galvão e José Tadeu Galvão, também são funcionários da CPTM.

"Muito antes de ingressar na Fepasa, em 1981, na função de ajudante geral, a ferrovia fazia parte da minha vida. Recordo quando, nas madrugadas, acordávamos assustados, com as fortes batidas na porta do nosso apartamento. Era o Batista, conhecido como "o chamador", convocando a Turma do Socorro para atender as vítimas de ocorrências. Meu pai era plantonista, atendia o trecho de Júlio Prestes a Amador Bueno. No Trem do Socorro, tinha o carro-cozinha e um cozinheiro que servia refeições durante os serviços de reparo até o pleno restabelecimento da circulação", lembra, saudoso, desse acolhedor ambiente de trabalho.

Dessa época, Galvão recorda-se também do prédio da Estrada de Ferro Sorocabana, em Carapicuíba, onde morou, e, especialmente do armazém instalado pátio da Barra Funda, no qual os ferroviários faziam as compras do mês e o valor era registrado em caderneta para desconto no mês seguinte. As conversas em família ou entre colegas de seu pai também estão impressas em sua memória. "O Trem Carmem Miranda quebrou na estação" ou "O Trem Pau-de-Arara descarrilou", ou "No Trem Japonês colocamos mão-francesa para a ferragem não cair", e por assim vai.

A dinâmica dos serviços aliada ao exercício da inteligência emocional é outro fator que uniu as diferentes gerações. "O nosso dia-a-dia é puro relacionamento humano, diz Galvão. "A estação é o local onde se faz contato direto com diversos públicos: usuário, segurança, maquinistas, prefeitura. "Um dia é diferente do outro. Aprendi a valorizar a vida humana e a dar mais valor à família. Tenho muito a agradecer. Tudo que tenho devo à ferrovia", conclui.

Colecionador e ferrofã

O dialeto ferroviário também faz parte do vocabulário da família de Roosevelt Louro, 18 anos na CPTM, dos quais 15 como maquinista das linhas 7 e 10. Neto e filho de ferroviários, ele também se orgulha de preservar os costumes que vivenciou com seus antepassados, entre os quais o gosto por compartilhar histórias sobre o dia a dia, hábito que prossegue até hoje entre seus primos e irmãos, também ferroviários da CPTM. "Todo dia tem um episódio", diz.

Sendo também condutor do Expresso Turístico, Roosevelt orgulha-se dessa versatilidade. "Um dia estou no trem metropolitano, outro na locomotiva". Seu pai gostava tanto da ferrovia que o batizou com nome de estação, hoje conhecida como Brás, que acabou se tornando seu apelido entre os colegas.

Entre as curiosidades do mundo dos trilhos que conta, está o modo singular da comunicação entre controladores operacionais e maquinistas. "Dependendo do par de linha, há diferentes traduções para `andar na via principal¿: se for nas linhas 7 e 10, a expressão correspondente é `rodar à direta¿ ; e, se for nas linhas 8 e 9, o equivalente é trocado por `rodar na reta¿, exemplica. A expressão que confirma o entendimento de mensagens recebidas também é diferenciada. "Nas linhas 7 e 10, usa-se o tradicional `positivo¿; nas linhas 8 e 9, um simples `boa¿ sintetiza o diálogo com o CCO", complementa.

Roosevelt coleciona diversos artigos relacionados a trilhos, tração, estação, sinalização, pneumática. Em uma estante da sala de sua casa, reúne 74 miniaturas de trem, cerca de 30 DVD´s com documentários e relatos de ferroviários, livros, peças de trem e manuais técnicos de operação de diversas companhias, principalmente as que operavam o trecho Santos-Jundiaí, sua preferida, pela ligação com a família.

Nesse acervo, destaca-se um lampião a gás, de 1920, usado para iluminar a estação e os trens. Ele conta que esse instrumento era tão emblemático que, ao se aposentar, o ferroviário podia tomar posse dele, presente que alegrava o time dos apaixonados pela ferrovia. O manual original da SP Railway, de 1932, também está entre as relíquias do arquivo. Trata-se da publicação que dava instruções sobre como deveria ser a operação: horário de estações e circulação dos trens, funcionamento da sinalização e critérios para contratação de funcionários. Placas de identificação de quilometragem dos trechos da Rede Ferroviária Federal e diversas miniaturas de trens estão também entre os itens colecionados. 

Fonte: CPTM

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